Esperando pelos Robôs
- Victor Hugo Germano
- 19 de jul.
- 7 min de leitura
"Automação altera a natureza do trabalho, mas não o destrói"
Existe uma cena, contada por Antonio Casilli logo na abertura de Waiting for Robots: The Hired Hands of Automation, que resume o argumento inteiro do livro antes mesmo de ele começar: Thomas Jefferson usava "dumbwaiters", pequenos elevadores que serviam pratos durante seus jantares e parecia não haver intervenção humana. Só que os elevadores eram operados por funcionários escravizados escondidos no porão.

É essa mesma "mão de obra inconspícua" que Casilli, sociólogo do Institut Polytechnique de Paris, identifica por trás de todo sistema de inteligência artificial contemporâneo. Não existe robô autônomo, não existe IA que aprenda sozinha. Existe, sim, um exército de mãos humanas contratadas que treinam, verificam, corrigem e imitam sistemas que depois são vendidos como mágica tecnológica.
De programadores indianos, motoristas remotos, Mechanical Turks e Data Labelers, o mercado está cheio de sonhos de automação, que na verdade são trabalhadores escondidos dos olhos dos consumidores, mal pagos e enfrentando instabilidade geral.
Casilli abre o livro com o óbvio que continuamos ignorando coletivamente: nenhuma IA existe no vácuo. "A contribuição humana é um componente essencial de todas as ferramentas de IA, independentemente de sua sofisticação".
Essa é a mesma inquietação que me acompanhou ao ler Phil Jones em The Work Without the Worker: por trás de cada reconhecimento facial "automático" ou carro autônomo, existe um exército de anotadores de dados definindo, a centavos por tarefa, o que é ou não um rosto, um sinal de trânsito, um discurso de ódio. Como escrevi na época, "a mágica do aprendizado de máquina é a correria humana da classificação de dados" e Casilli vem documentando essa mesma mágica com rigor acadêmico, mostrando que o "P" de GPT significa justamente "pretrained": treinado por humanos, antes de qualquer coisa.
Aprofundar nosso conhecimento sobre as mudanças na perspectiva do trabalho nos permite enxergar para onde eventualmente todos os trabalhos rumam, nos preparando para a nova realidade.
"O foco da sociedade não deveria mais estar no cientista de computação especialista, mas nas centenas de milhões de mãos contratadas que, diariamente, movem os fios desses autômatos-marionete."
Casilli descreve um fenômeno que ele chama de Deslocamento: o trabalho humano na economia digital não é eliminado, é apenas movido para fora do campo de visão, reposicionado em outro ponto da cadeia produtiva, onde continua criando, mantendo e ativando as ferramentas que usam essa inteligência humana extraída. Antes de qualquer interação com a Siri ou Alexa, trabalhadores tiveram que ouvir horas de gravações de conversas banais; antes de qualquer soneto gerado por um ChatGPT, humanos tiveram que avaliar toneladas de textos parecidos.
Enquanto Phil Jones foca no microtrabalho como sintoma de uma crise planetária do emprego, Antonio Casilli constrói uma teoria sociológica mais ampla sobre como plataformas capturam valor, não apenas de trabalhadores pagos por tarefa, mas também de usuários comuns, que sem saber, produzem dados de treinamento só ao usar um app. Esse livro não é sobre tecnologia, é sobre trabalho, seu impacto atual e as transformações que nossa sociedade tem passado ao mudar o significado de como o trabalho é reconhecido, explorado e remunerado: essa também é uma discussões sobre o que é trabalho nos dias atuais.
Os números por trás disso são concretos. No Quênia, mais de 140 moderadores de conteúdo contratados pela Sama para revisar material do Facebook foram diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático severo depois de anos assistindo a vídeos de decapitações, abuso infantil e suicídios, recebendo cerca de 1,50 dólar por hora. A advogada que representa os trabalhadores resumiu o problema: "se em Dublin as pessoas não podem olhar conteúdo nocivo por mais de duas horas, essa deveria ser a regra em todo lugar". Meta pagou 52 milhões de dólares em 2020 para moderadores americanos afetados os trabalhadores quenianos, até hoje, não receberam nada equivalente.
Moderação Facebook/Sama- Nairóbi, Quênia
Pagamento ~US$ 1,50-2,20/hora;
100% dos avaliados com PTSD, ansiedade ou depressão
Moderação TikTok/Majorel - Nairóbi, Quênia
Meta de 250-350 vídeos/hora; sem suporte psiquiátrico regular
Anotação ImageNet (Mechanical Turk). Global, arbitragem internacional
Pagamento por tarefa, sem vínculo formal, sem direitos trabalhistas
O grande problema com as previsões do "Apocalipse do Trabalho" está na visão reducionista baseada em tarefas, onde à medida que um grupo de tarefas são automatizadas, ocupações inteiras são eliminadas. Em grande parte, essas previsões se esquecem que emprego é determinado por tendências macroeconômicas, além de instabilidade geopolítica, crises ambientais e reposicionamento de indústrias.
No mundo da consultoria esse pensamento é super comum, e o resultado pros negócios sempre ruim: Jeff Sutherland explica esse pensamento como "A Falácia do Porteiro". Se você entende o papel de porteiro simplesmente como uma forma de abrir a porta, claro que é possível gerar economia de custos ao substituí-lo por um sistema automatizado. Mas se você entende o porteiro como uma forma de elevar o status do hotel e criar uma experiência melhor para o hóspede (receber pacotes, saudar os hóspedes, carregar bagagens, segurança), então você percebe que o papel completo do porteiro não pode ser substituído por um sistema automatizado.
A economia de curto prazo vem ao custo da marca como empregadora que oferece benefícios incomparáveis aos funcionários e coloca a satisfação dos funcionários acima da satisfação dos investidores, e o dano de longo prazo à capacidade de atrair novos talentos e reter os funcionários atuais pode custar à empresa muito mais nos anos seguintes.
Casilli é claro que o verdadeiro objetivo não é substituir trabalhadores, mas usar a ameaça de substituição como ferramenta de disciplina salarial: a automação é o chicote para disciplinar a força de trabalho e a cenoura para atrair investidores. Ninguém se organiza para melhores condições de trabalho com medo do desemprego.
"Enquanto o medo se concentra em robôs tomando todos empregos, a razão se recusa a aceitar que a IA é, na verdade, feita de trabalho digital terceirizado"
O dedo que clica e a Plataformização
A concentração do trabalho em grandes plataformas é um movimento cada vez mais comum no trabalho: arbitragem internacional, baixa ou nenhuma capacidade de organização, decisão algorítimica de serviços: o que você assiste, quem te leva para o trabalho, o que você escolhe comer, o seu trabalho diário está cada vez mais sendo intermediado por plataformas. iFood, Uber, Netflix, Instagram, Onlyfans, Youtube, Sama, Amazon, Google Maps. são as novas fábricas de tecido.
O valor real não está na comida entregue, mas em tudo que rodeia a transação: o horário do pedido, a rota do entregador, o tempo de espera, as mensagens trocadas. E todos esses dados são utilizados para treinar algoritimos. Casilli descreve como, através das plataformas, o trabalho foi sendo esvaziado em nome da comunidade e da atenção: gameficam a criação de reviews de restaurante, para não ter que pagar para produtores de conteúdo, enquanto o objetivo é extrair cada vez mais dados dos usuários.
Para Casilli as plataformas são "jardins murados" que impõem tarefas de produção de dados sob o disfarce de conveniência, e a "suposta neutralidade" delas "absolve-as de responsabilidade social e as mascara como commodities sociais neutras". É o mesmo argumento que desenvolvi ao ler Yuk Hui sobre soberania tecnológica: plataformas não são meros intermediários, são estruturas de poder disfarçadas de livre mercado, que capturam dados como ativo estratégico e os devolvem, quando muito, como "engajamento".
Essa arquitetura de vigilância ficou visível de forma quase cômica no caso das câmeras "inteligentes" de supermercados europeus, relatado por Casilli: funcionários em Madagascar, sentados numa garagem, assistem a streams de câmeras e enviam manualmente alertas de furto para os caixas, enquanto o público acredita que a IA identifica o roubo automaticamente. É o Mágico de Oz do capitalismo de plataforma: puxe a cortina, e lá está sempre um humano mal pago fazendo o trabalho que a marca vende como "inteligência artificial".
Ao ler Waiting for Robots, fica difícil não voltar para Lewis Mumford. Em O Mito da Máquina, Mumford descreve civilizações inteiras organizadas como uma "megamáquina": faraós como processadores centrais, escribas como programadores, e uma massa de trabalhadores reduzidos a engrenagens intercambiáveis, "unidades de entrada/saída cujo valor é determinado por sua contribuição para os objetivos do sistema, não por suas qualidades humanas". A IA de hoje, escrevi naquele post, é essa mesma megamáquina "construída de dados, algoritmos e da pressão implacável da eficiência", operando "não pelo chicote, mas pela conveniência operacional, vigilância onipresente e a promessa da otimização constante".
Casilli chega a uma conclusão estrutural muito parecida, mas pela via da sociologia do trabalho: a plataformização não visa eliminar o trabalho, e sim esvaziá-lo enquanto categoria social e política. "Apesar de iniciar dizendo que a automação não consegue liquidar o trabalho, a plataformização pode totalmente desvalorizá-lo".
É a mesma engrenagem de Mumford, atualizada: em vez de tijolos e músculos, dados e cliques; em vez de um faraó, um algoritmo de precificação dinâmica.
Terminar Waiting for Robots não deixa a sensação de "problema resolvido", e Casilli é honesto sobre isso, evitando tanto o catastrofismo tecnológico quanto o otimismo ingênuo dos evangelistas de IA. Sua proposta de saída é algo como um "Coletivismo de Dados", ou um socialismo digital, onde Dados são um bem comum coletivizado, um ativo estratégico que poderia gerar uma renda básica pensada fora do discurso libertário do Vale do Silício. Se dados da população são um ativo gerador de valor, eles devem contribuir para um Universal Digital Income a partir da taxação de empresas que extraem valor de dados de cidadãos.
"Se as plataformas tivessem que pagar pelo trabalho digital, incluindo trabalho invisível, o modelo de negócios acabaria completamente. A captura de valor se tornaria inviável."
Considero esse um livro imprescindível, na mesma categoria de Ghost Work de Mary Gray e Siddharth Suri e The Work Without the Worker de Phil Jones: obras que nos obrigam a olhar atrás da cortina do "milagre" da IA e reconhecer que, se hoje existe alguma inteligência artificial funcional no mundo, ela tem nome, CPF (ou seu equivalente local) e, frequentemente, um salário que não paga as contas do mês.
A questão que fica: quanto do discurso sobre inteligência artificial é, na verdade, ilusão para esconder relações de trabalho que preferimos não examinar de perto?
Casilli responde essa pergunta com números, processos judiciais e testemunhos. A resposta não é reconfortante.



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